não è a do lavrador
sem terra
a minha tristeza
è a do astrónomo cego
de sobressalto dos corpos
dói - me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
è o sobressalto da luz
num tremor de água
è a boca da paixão
mordendo o meu sossego
na contrária face
da minha solidão
eu amei - te
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos entreabertos
as asas no cabaço do céu
não lhe respondo a loucura
porque ama com egoísmo
o casulo do seu corpo
fadiga de anjos
ou covardia dos homens
do solo da loucura nenhum filme
è capaz è nas suas mãos que o fluxo
das raìzes agora apazigua os destroços
da voz das minhas às suas sò a bária dos duendes
volta a perscrutar
da infância e enquanto dançam
descobrem os arrebolas eloquentes
da tristeza dançam no país de cinzas
pela surpresa inteligível da natureza
os seus domínios eram quatro silabas
que se agitavam
hoje somente réstia de madeira
metáfora a persistir no ecrã da cabeça
apesar deste âmago que me devora
amo - a ainda com mais avidez
intensamente cada dia que passa
amo - te meu amor
homem para mim sem palavra
è um covarde
a dor da verdade dòi muito menos
do que a dor maior da mentira
tu ès tudo para mim amo - te
um grande bem aja
beijos !
em busca do Santo Gral
onde nasceu o amor
busca constante em que me envolvi
com afinco não sabia que era em ti
que devia procurar minha preciosa
catarse em diadema de marfim
a sorte não estás pronto
para seres feliz
ainda que seja esse
o teu maior desejo
enquanto te lamentas
do perdido e não te dàs
ao descanso
não podes saber o valor da paz
sò quando todo o anelo renuncias
sem objectivos nem mais desejos
e já não dàs a sorte qualquer nome
já a maré dos eventos não te atinge
o coração e já se acalma a tua alma
sem sentido sob o sol sem luz
da alma cativa que encerra o silêncio
apagado do teu fogo cintilante !
a brisa do mar
o cheiro a água salgada do mar
o aroma do vento no ar o esplendor
do amor a pele a arrepiar as ondas
a baterem a alma a voar instantes
do mar
talvez da turba irada de sereias de cauda prateada
que vão com o vento os carmes concentrando o mar
turquesas enormes iluminadas era o clamor das águas
murmurando como um bosque pagão de deuses
quando rompeu no Oriente o pátio da alvorada
as estrelas clarearam repentinas e logo as vagas
são no verde plano tocadas de ouro e irradiações
divinas o oceano estremece abrem - se as brumas e a ela
aparece nua à flor do oceano coroado de um circulo
de espumas
ruas ao fim da tarde
minha mãe nos convocava
era o tempo do regresso
e a rua entrava connosco
em casa tanto o tempo morava
em nòs que dispensávamos futuro
recolhia em meu quarto
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe
à entrada da cama eu sacudia a areia
dos sonhos e despertava vida além
entre cor e mundo nenhuma porta cabia
que fechadura encerra dos lados do infinito ?
nos céus ou nem là tem o seu fim ?
ou hei - de eu acabar ou hei - de
querendo Deus ou ele acabará em mim ?
como um lodo escuro
sò visível quando as águas
da ria por conta deixam de pulsar
a melodia solar se reflecte no seu
espelho anelante
e ao morrer sobe uma vez mais
se aferra que etéreo coro responder
de vozes que chegam de onde não
seja nem mar nem terra !
quem canta assim com voz tão benta
que são os anjos nos céus
são anjos ou demónios a tentar
se è demónio não me atenta
que a minha alma è sò de Deus
o corpo dou eu ao mar !
o vento bate - me o rosto
e enxuga uma lágrima
que cai porque lembrei - me
de ti do teu sorriso do teu olhar
e a saudade chega tão repentinamente
que não houve tempo para dizer eu te amo
amo - te
adormeci
a amar - te !
sò a boca pode iludir
seus náufragos sò ela
pode convencer a mão
a preparar os ácidos
e desmembrar passados nas cores
da ausência
para te aproximar de mim
em todos os ruídos que me são
disponíveis sem o concluìo
que tem com a realidade
mais perto e as estrelas em bando dar a sopro
do mar o seio perfumado ora os leques abrindo
ora os leques fechando sò de meu cimo sò do meu
trono os rumores do dia ouvir nascer o primeiro
arrebolo e no azul dialogar com o espírito das flores
que invìsivel ascende e vai falar ao sol sentir romper
do vale e meus pés numerosa dilatar - se a cantar
a alma sonora e quente das árvores que em flor abre
a manhã cheirosa dos rios onde luz todo o esplendor
do Oriente e juntando a essa voz glorioso murmúrio
de minha fonte abrindo ao largo os vèus
ir com ela através do horizonte purpúreo e penetrar
nos céus ser palmeira depois de homem ter sido esta
alma que vibra em mim
sentir que novamente vibra e eu a espalmo a tremer
nas folhas palma a palma e a dizendo a subir numa caule
fibra a fibra que bom dizer então bem alto
ao firmamento o que outrora jamais homem
dizer não pude da menor sensação ao máximo tormento
quanto passa através da minha existência rude !
e esfolhar - me ao vento indômita e selvagem aos arroncos
vem bufando o temporal
poeta bramir então a nocturna bafagem meu canto triunfal !
e isto que aqui então dizer que te amo mãe natureza !
de modo como entendes a voz do pássaro o ramo e o eco
que têm o oceano as borrescas tremendas e pedir uno sol
a cuja luz referves ou no verme do chão ou uma flor que sorri
mais tarde em qualquer tempo a minha alma conserves para
que eternamente eu me lembre de ti !
quando um dia eu me for das vossas
vidas em seu fútil problema tão perdidas
que atè parecem necrològios porque o tempo
è uma invenção da morte não o conhece a vida
a vida verdadeira em que basta um momento
de poesia para nos dar a eternidade inteira
inteira sim porque essa vida eterna è somente
por si mesma è dividida não cabe a cada qual
uma porção e os anjos entre olham - se espantados
quando alguém ao voltar a si da vida
acaso lhes indaga que horas são
vejo a vida a acontecer
como uma flor de um jardim
outra vez a renascer e vejo
a alma cà dentro bem no centro
assim a sorrir porque separou formalmente
o trigo da erva !
um dia o sol
deixará de laçar os seus
dardos de fogo e tu irás
partilhar um leito de cinzas
ao nível da gelada presunção
de nem ter sido
deixemos a ciência que não
põe mais flores que a flora
pelos campos nem dà de Apolo
ao carro outro curso que Apolo
contemplação estéril e longínqua
das coisas próximas deixemos que ela
olhe atè não ver nada com seus cansados
olhos vê como Ceres è a mesma sempre
e com os louros campo intumesce e os cala
para avenas dos sagrados de Pã
vê seu jeito sempre antigo aprendido na origem
azul dos deuses
as ninfas não sossegam na sua dança eterna
quando os meus passos não quando voltam
meus passos
nega - me o pão o ar a luz
mas nunca o teu riso porque então morreria
que me abandona
toda a realidade olha
para mim como um girassol
com a cara dela no meio
caçador
anjo è o corpo
tambèm o poeta
fogo
vestidos de profundos
limites sabedorias
no interior do fruto mais distante
na vibração da nota mais discreta
no búzio mais convolvo e ressoante
na camada mais densa da pintura
na veia que no corpo mais nos sonde
na palavra que diga mais brandura
no silêncio mais funda desta pausa
em que a vida se fez perenidade
procuro a tua mão decifro a causa
de querer não crer
final intimidade
as flores no jardim não morrem
se o perfume no cristal da essência
se defende passemos nòs as provas
os ardores não caldeiam instintos
sem o lume nem o secreto aroma
que reacende
e as juras das abelhas recados
para o sol as tuas mãos entram
devagar sob a cascata de sons
elevas o silêncio à boca cristalina
onde a pomba reconhece as sementes
do céu !
è urgente destruir certas palavras
ódio solidão e crueldade
alguns lamentos
muitas espadas
è urgente inventar alegria
multiplicar os beijos
as searas
è urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras
caì o silêncio nos ombros e a luz impura atè doer
è urgente o amor è urgente permanecer
è o desleixo com que derramas
a penumbra a lacidez com que abrigas
o silêncio o abandono com que partes
sem deixar