quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Tristeza

a minha tristeza

não è a do lavrador

sem terra

a minha tristeza

è a do astrónomo cego
 

quem se deite em fogo

para morrer

pois eu sou como o vagalume

sò existo

quando me incendeio
 

O amor

se parece com a vida

ambos nascem na sede da palavra

ambos morrem na palavra bebida
 

Magoa - me a saudade

do tempo em que habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo - se

nas pupilas desatentas
 

Saudades

Magoa - me a saudade

de sobressalto dos corpos

dói - me  a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés
 

o que se vive

não começa

e o sonho

nunca tem pressa
 

não me basta viver

quero a vida como febre

o amor 

como lume e água
 

no final

saberás o que se ama

não regressa
 

não me basta morar

quero ser habitado

por quem ao destino

desobedece
 

não me basta ser

eu quero o transbordar de tudo

o desassombro que toda a margem

desconhece
 

O poeta sabia

que não ia por ali

eu vou por onde não sei

meu aqui è sempre além
 

no teu rosto

competem mil madrugadas

nos teus lábios

a raiz do sangue

procura suas pètalas
 

a tua beleza

è essa luta de sombras

è o sobressalto da luz

num tremor de água

è a boca da paixão

mordendo o meu sossego
 

para ti criei


 todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que talhei

o sabor de sempre

nos contornos do fogo

desenhei o teu rosto

para te reconhecer

mudei de corpo

troquei de noites

juntei crepúsculo e alvorada
 

amei - te sem o saber

amei - te sem saberes

amando - te de te procurar

amando - te de te inventar
 

amei - te sem saberes

no avesso das palavras

na contrária face

da minha solidão

eu amei - te

e acariciei

o teu imperceptível crescer

como carne da lua

nos nocturnos entreabertos
 

Escolhes

sentar - te no âmago

das palavras e queres

viver !
 

Rente

a loucura estreia - se

as asas no cabaço do céu

não lhe respondo a loucura

porque ama com egoísmo

o casulo do seu corpo


fadiga de anjos

ou covardia dos homens

do solo da loucura nenhum filme

è capaz è nas suas mãos que o fluxo

das raìzes agora apazigua os destroços

da voz das minhas às suas sò a bária dos duendes

volta a perscrutar
 

Dançam

as águas no leito profundo

da infância e enquanto dançam

descobrem os arrebolas eloquentes

da tristeza dançam no país de cinzas

pela surpresa inteligível da natureza

os seus domínios eram quatro silabas


que se agitavam

hoje somente réstia de madeira 

metáfora a persistir no ecrã da cabeça

 

Dedicado

a mulher que eu amo

apesar deste âmago que me devora

amo - a ainda com mais avidez

intensamente cada dia que passa

amo - te meu amor

homem para mim sem palavra

è um covarde

a dor da verdade dòi muito menos

do que a dor maior da mentira

tu ès tudo para mim amo - te


um grande bem aja


             beijos !
 

Tu

ès o próprio amor

em busca do Santo Gral

onde nasceu o amor

busca constante em que me envolvi

com afinco não sabia que era em ti

que devia procurar minha preciosa

 catarse em diadema de marfim

 

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Sorte



 enquanto vives perseguindo

a sorte não estás pronto

para seres feliz

ainda que seja esse

o teu maior desejo

enquanto te lamentas

do perdido e não te dàs

ao descanso

não podes saber o valor da paz

sò quando todo o anelo renuncias

sem objectivos nem mais desejos


e já não dàs a sorte qualquer nome

já a maré dos eventos não te atinge

o coração e já se acalma  a tua alma

Quão difícil

se torna desejar a lua de uma noite

sem sentido sob o sol sem luz

da alma cativa que encerra o silêncio

apagado do teu fogo cintilante !
 

Instantes do mar

pés descalços na areia

a brisa do mar

o cheiro a água salgada do mar

o aroma do vento no ar o esplendor

do amor a pele a arrepiar as ondas

a baterem a alma a voar instantes

do mar
 

sò quero

o teu bem minha querida

amiga invesìvel  mas atenta
 

Afrodite

Móvel festivo  trépido arrolando a clara voz

talvez da turba irada de sereias de cauda prateada

que vão com o vento os carmes concentrando o mar

turquesas enormes iluminadas era o clamor das águas

murmurando como um bosque pagão de deuses

quando rompeu no Oriente o pátio da alvorada

as estrelas clarearam repentinas e logo as vagas

são no verde plano tocadas de ouro e irradiações

divinas o oceano estremece abrem - se as brumas e a ela

aparece nua à flor do oceano coroado  de um circulo 


de espumas
 

As ruas

no tempo em que havia

ruas ao fim da tarde

minha mãe nos convocava

era o tempo do regresso

e a rua entrava connosco

em casa tanto o tempo morava

em nòs que dispensávamos futuro


recolhia em meu quarto

a cidade adormecia

no mesmo embalo da nossa mãe


à entrada da cama eu sacudia a areia

dos sonhos e despertava vida além


entre cor e mundo nenhuma porta cabia

que fechadura encerra dos lados do infinito ?
 

Que terra

è esta este mar que sò acaba

nos céus ou nem là tem o seu fim ?

ou hei - de eu acabar ou hei - de

querendo Deus ou ele acabará em mim ?
 

eram de longe do mar

 traziam o que è do mar

doçura e ardor os olhos

fatigados
 

o medo

palpita nas palavras

como um lodo escuro

sò visível quando as águas

da ria por conta deixam de pulsar

a melodia solar se reflecte no seu

espelho anelante 
 

a voz que sobe

a tremer morre là longe

e ao morrer sobe uma vez mais

se aferra que etéreo  coro responder

de vozes que chegam de onde não

seja nem mar nem terra !

quem canta assim com voz tão benta

que são  os anjos nos céus

são anjos ou demónios a tentar

se è demónio não me atenta

que a minha alma è sò de Deus


o corpo dou eu ao mar !
 

Ver - te

è apenas cumprir um dos sentidos

tudo nos resta

excepto querer - mo - nos

 

amor com muita saudade

a noite tudo è silencioso

o vento bate - me o rosto

e enxuga uma lágrima

que cai porque lembrei - me

de ti do teu sorriso do teu olhar

e a saudade chega tão repentinamente

que não houve tempo para dizer eu te amo

amo - te

adormeci

 a amar - te  !
 

de mim para ti

de ti para mim

sò a boca pode iludir

seus náufragos sò ela

pode convencer a mão

a preparar os ácidos

e desmembrar passados nas cores

da ausência 


 

de mim para ti

falo - te ainda da morte

para te aproximar de mim

em todos os ruídos que me são

disponíveis sem o concluìo

que tem com a realidade 
 

Ser palmeira

existir num pìcaro  azulado vendo as nuvens

mais perto e as estrelas em bando dar a sopro

do mar o seio perfumado ora os leques abrindo

ora os leques fechando sò de meu cimo sò do meu

 trono os rumores do dia ouvir nascer o primeiro

arrebolo e no azul dialogar com o espírito das flores

que invìsivel ascende e vai falar ao sol sentir romper 

do vale e meus pés numerosa dilatar - se a cantar

a alma sonora e quente das árvores que em flor abre

a manhã cheirosa dos rios onde luz todo o esplendor


do Oriente e juntando a essa voz glorioso murmúrio

de minha fonte abrindo ao largo os vèus


ir com ela através do horizonte purpúreo e penetrar

nos céus ser palmeira depois de homem ter sido esta

 alma que vibra em mim


sentir que novamente vibra e eu a espalmo a tremer

nas folhas palma a palma e a dizendo a subir numa caule


fibra a fibra que bom dizer então bem alto

ao firmamento o que outrora jamais homem


dizer não pude da menor sensação ao máximo tormento

quanto passa através da minha existência rude !


e esfolhar - me ao vento indômita  e selvagem aos arroncos

vem bufando o temporal


poeta bramir então a nocturna bafagem meu canto triunfal !

e isto que aqui então dizer que te amo mãe natureza !


de modo como entendes a voz do pássaro o ramo e o eco

que têm o oceano as borrescas  tremendas e pedir uno sol


a cuja luz referves ou no verme do chão ou uma flor que sorri

mais tarde em qualquer tempo a minha alma conserves para


que eternamente eu me lembre de ti !

 

Ah ! os relógios

amigos não consultem os relógios

quando um dia eu me for das vossas

vidas  em seu fútil problema tão perdidas

que atè parecem necrològios porque o tempo

è uma invenção da morte não o conhece a vida

a vida verdadeira em que basta um momento

de poesia para nos dar a eternidade inteira

inteira sim porque essa vida eterna è somente 

por si mesma è dividida não cabe a cada qual

uma porção e os anjos entre olham - se espantados


quando alguém ao voltar a si da vida

acaso lhes indaga que horas são
 

Renascer

Quando olho para mim

vejo a vida a acontecer

como uma flor de um jardim

outra vez a renascer e vejo

a alma cà dentro bem no centro

assim a sorrir porque separou formalmente

o trigo da erva !
 

De mim para ti

de ti para mim

um dia o sol

deixará de laçar os seus

dardos de fogo e tu irás

partilhar um leito de cinzas

ao nível da gelada  presunção

 de nem ter sido



 

A vida

passa como se tremêssemos

deixemos a ciência que não

põe mais flores que a flora

pelos campos nem dà  de Apolo

ao carro outro curso que Apolo

contemplação estéril e longínqua

das coisas próximas deixemos que ela

olhe atè não ver nada com seus cansados

olhos vê como Ceres è a mesma sempre

e com os louros campo intumesce e os cala


para avenas dos sagrados de Pã

vê seu jeito sempre antigo aprendido na origem

azul dos deuses


as ninfas não sossegam na sua dança eterna

quando os meus passos não quando voltam


meus passos


nega - me o pão o ar a luz

mas nunca o teu riso porque então morreria


 

Todo eu

sou qualquer força

que me abandona

toda a realidade olha

para mim como um girassol

com a cara dela no meio
 

As horas

em que se caçam as abelhas

caçador

anjo è o corpo

tambèm o poeta

fogo

vestidos de profundos

limites sabedorias
 

Intimidade

no coração da mina mais secreta

no interior do fruto mais distante

na vibração da nota mais discreta

no búzio mais convolvo e ressoante

na camada mais densa da pintura

na veia que no corpo mais nos sonde

na palavra que diga mais brandura

no silêncio mais funda desta pausa

em que a vida se fez perenidade

procuro a tua mão decifro a causa


de querer não crer

final intimidade
 

Química

sublimemos assim o amor

as flores no jardim não morrem

se o perfume no cristal da essência

se defende passemos nòs as provas

os ardores não caldeiam instintos

sem o lume nem o secreto aroma

que reacende
 

Nos teus pulsos


 não há gritos apenas o brilho

e as juras das abelhas recados

para o sol as tuas mãos entram

devagar sob a cascata de sons

elevas o silêncio à boca cristalina

onde a pomba reconhece as sementes

do céu !

È urgente o amor

è urgente um barco no mar

è urgente destruir certas palavras

ódio solidão e crueldade

alguns lamentos

muitas espadas


è urgente inventar alegria

multiplicar os beijos

as searas


è urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras

caì o silêncio nos ombros e a luz impura atè doer

è urgente o amor è urgente permanecer
 

Escolhes

o duende solitário

das cidades e elimina

o ensurdecedor protagonismo

de Deus !
 

Uma mulher amada

atè as lágrimas dirá

aos filhos que roubei

a minha carne
 

o que eu mais temo em ti

não são as palavras 

è o desleixo com que derramas

a penumbra a lacidez  com que abrigas

o silêncio o abandono com que partes

sem deixar
 

Tristeza

a minha tristeza não è a do lavrador sem terra a minha tristeza è a do astrónomo cego