terça-feira, 31 de maio de 2022

não tenho pressa

não tenho pressa pressa de quê ?

não tem pressa o sol e a lua

estão certos ter pressa è crer

que a gente passa adiante das pernas

ou que dando um pulo salta por cima 


da sombra não não sei ter pressa


se estendo os braços chego exactamente

aonde o meu braço chega nem um


 centímetro mais longe


toco sò onde toco não aonde penso

sò me posso sentar aonde estou


e isso faz rir como todas as verdades absolutamente

verdadeiras mas o que faz rir a valer è que nòs


 pensamos noutra coisa e vivemos vadios da nossa realidade

e estamos sempre fora dela porque estamos aqui
 

agora que sinto amor

agora que sinto amor tenho interesse

no que cheira nunca antes me interessou

que uma flor tivesse  cheiro agora sinto

o perfume das flores como se visse uma

coisa nova sei bem que elas cheiravam

como sei que existia são coisas que se

sabem por fora mas agora sei com

 a respiração da parte de trás da cabeça

hoje as flores sabem - me bem num paladar

que se cheira


hoje às vezes  acordo e cheiro antes de ver 

 

somos nòs a verdade

somos nòs a verdade do que existe

somos nòs meu amor a nossa vida

breve ampara a vida das coisas 

que persiste e de que valem

os vértices dourados dos montes


se não os vimos ?


água campos verdes sossegados

que afina a brisa alisa ?

 

pousa sobre mim



 
pousa sobre mim os teus olhos vagarosos

sobre o meu dorso livre água tranquila

deslizando comigo atè o nada 

que se sabe da vida ?

nada há que se compare ao grande

susto do mútuo descobrir - se 

e de sua dor vivamos a verdade deste 

sonho que se sabe do amor ?

eu caio em ti

eu caio em ti como uma bruta pedra

na água no amor não me dissolvo

estou ( quem nos governa quem

nos arrasta à guerra ou repouso )

colado a quê um copo sobre a mesa

menos que o copo o fundo desse

copo e não obstante para sempre

preso pois o que basta è tudo o que


me exige uma violentação do que por dentro

 è o meu mundo indefinível è tão concreto


mas que não conheço e às vezes temo que me

paralise


viver è submeter - se eu submeto
 

sem qualquer pensamento

sem qualquer pensamento ou sentimento que de leve

me afaste  mergulho na secura do que vejo

cada coisa està no seu lugar cada coisa està certa

o inverno seca apenas o exterior deixa a humidade

interna que sei de olmos e faias e olorosas ervas ?

de mim ? o ritmo do que vive è tão perfeito como

o ar que entra e sai das narinas


olmo è uma árvore da família ulmìcea atinge 

dimensões  de 20 a 30 metros a sua madeira è solida


e flexível muito usada em carpintaria e serraria 
 

O meu amor

o meu amor que livre anda

de engano ambiente natural

encontra nestes campos onde

a relva levemente movida

pela brisa ao contacto è macia

e o boi rumina sem espanto 

a sua doçura devagar olhos

postos nas coisas distraído

um cavalo anda longe e a

crina se desfralda como 


um leque aberto por um vento muito

brando meu amor se acomoda entre


estas pedras como o seu leito o rio

a asa do insecto ao corpo delicado


ao morno ventre o bicho nascido como

fronte se inclina aos meus suspiros 


que vou deitando aos transparentes

ares quando o arvoredo afina 


brisa agita


ah ditosa vida pelo arado de sonho 

 sou levado e o que fazes de mim


è o que me fica
 

O que è a literatura ?

escrever  è esquecer


a literatura è a forma mais agradável

de ignorar a vida

a música embala


as artes visuais animam

as artes vivas

(  como a dança e a arte de representar

                                                     entretém )

a primeira porém afasta - se da vida por fazer dela

um sonho


as segundas contudo não se afastam da vida porque

usam de formulas visíveis e portanto vitais


outras porque  vivem da mesma vida humana


não è o caso da literatura essa simula a vida um romance

è uma história que nunca foi 

um drama è um romance sem narrativa

um poema è uma expressão de ideias ou de sentimentos


numa linguagem em que ninguém emprega

pois que ninguém fala em versos
 

tocar

o tocar das tuas tuas mãos quando pousas

os teus olhos sobre mim vê assim o fundo

da minha alma descortinada por uma deusa

numa noite cheia de estrelas num festim

na alcova perfumada o teu olhar deixou - me


iluminado que aos poucos me desfruta

no impacto dos beijos numa volúpia


ao tocar a tua flor nas caricias da tua

pele nua um doce arrepio navego


no teu corpo entro no mar ès um violino

nas minhas mãos


os acordes são perfeitos


no nosso leito um tino 


ouve - se  uma linda canção


o teu peito a palpitar no meu  a mesma


emoção ...
 

Òcio

descanso merecido golfamos profundamente

o dia o cansaço descompensado a compensação

repousada no olhar beijamos as estrelas ardentes

do sol olhar renovado do dia damos abraços eternos

vinculamos a alma a cidade nela os afectos que o rio

transborda solenemente
 

poesia è paixão


 a paixão è assim

deixa - se seduzir

sem se deixar entregar

a paixão è um rio ou 

um lago que escorre

para algum lugar

a paixão è assim transformada

em amor e atracção poesia

è paixão 

amor

quando duas pessoas

fazem amor

não estão apenas a fazer

amor estão a dar corda

ao relógio do mundo
 

loucura

aqueles que cometem

loucuras de amor

jamais merecerão

um manicómio pois

eles gozam de saúde


e de mais  plena consciência


 

chama

o amor è fogo

que se acende

sem chama 

e sem combustível
 

o bem e o mal

è tão fácil atrair o bem  como o mal

è tão fácil sintonizar - se com o amor

como sintonizar - se com o ódio

do espaço limitado e de vastidão

de vosso coração retirai bênção

para o mundo pois tudo o que

for um bênção para o mundo será

uma bênção para vòs
 

luz

a força que há na luz não a sua ausência

pode ser a origem mais secreta do escuro

em que nos afundamos de repente por

excesso de luz eis que estou cego por

excesso de amor eu não entendo

 o farfalhar macio a crua seda

aquilo que nos move  e que ultrapassa

todo o limite de tudo o que sabemos

por excesso de dor eu me humanizo

eu me faço pequeno e real nos tornamos


serenos silenciosos tão reais e inocentes

e macios que essa luz que não vemos


è demais mesmo ser è um excesso


em que criamos
 

Quando o meu amor vem ter comigo

quando o meu amor vem ter comigo

è um pouco com música um pouco

mais como uma cor  ( por exemplo

laranja )

contra o silêncio ou a escuridão

a vinda do meu amor emite 

um maravilhoso odor no meu


pensamento devias ver quanto a encontro

a minha menor pulsação se torna menos


e então toda a beleza dela è um torno

cujos quietos lábios me assassinam subitamente


mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela

faz algo subitamente luminoso e preciso e então


somos eu e ela


o que è isso o realejo toca 



 

Nocturnamente te construo

nocturna-mente  te construo para que sejas

a palavra do meu corpo peito em mim

respira olhar que me despojo na rouquidão

da tua carne me inicio me anuncio e me

denuncio sabes agora para o que venho

e por isso me desconheces 
 

no teu rosto

no teu rosto competem mil madrugadas

nos teus lábios a raiz do sangue procura

suas pétalas a tua beleza è essa luta

 de sombras  è o sobressalto da luz

num tremor de água è a boca de paixão

mordendo o meu sossego

 

fui sabendo de mim

fui sabendo de mim por aquilo

que perdia pedaços de mim

com o mistério de serem poucos

e valeram sò quando os perdia

fui ficando por umbrais aquém 

do passo que nunca ousei

eu vi à árvore  morta e soube

que mentia
 

Para ti

foi por ti que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

 toquei no nada e para ti foi

tudo para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram no minuto 

que talhei o sabor do sempre

para ti dei voz as minhas mãos


abri gomos do tempo assaltei o mundo

pensei que tudo estava em nòs nesse 

doce engano de tudo sermos donos

sem nada termos simplesmente porque

 era de noite e não dormíamos


eu desci em teu peito para me procurar

e antes que a escuridão nos cingisse

a cintura ficamos nos olhos vivendo 

de um sò amando uma sò vida
 

identidade

preciso de ser um outro

para ser eu mesmos

sou grão de rocha

sou vento que a desgasta

sou pólen sem insectos

sou areia sustentando o sexo

 das árvores

existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado


ansiando a esperança do futuro


no mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço


 

O INSTANTE antes BEIJO

não quero o primeiro beijo

basta - me

o instante antes do beijo

quero - me

corpo ante o abismo

terra no rasgão do sismo

o lábio ardendo

entre tremor e temor


o escuro da luz

no desejo dos corpos

o amor não tem depois

quero o vulcão

que na terra não toca

o beijo antes de ser boca
 

amei - te sem saber

amei - te sem saber no avesso das palavras

na contrária face da minha solidão

eu te amei e acariciei o teu imperceptível

crescer como carne da lua nos nocturnos

lábios entreabertos e amei - te sem saberes

amei - te sem o saber amando de  te procurar


amando - te de te inventar no contorno do fogo

desenhei o teu rosto r para te reconhecer mudei


de corpo troquei de noites juntei crepúsculo


e alvorada para me acostumar a tua intermitente

ausência ensinei às timbilas a espera do silêncio


nota : timbila e marimba Chope o som de Moçambique

instrumento polifónico de percussão utilizado pela etnia

Chope Província de Gaza sul de Moçambique ( plural mbila )

foi proclamado Obra prima do Património Oral e Imaterial

da Humanidade pela UNESCO
 

Solidão

aproximo -me da noite

o silêncio abre os seus passos escuros

e as coisas escorrem

por óleo frio e espesso

esta deveria ser a hora

em que me recolheria


como um poente

no bater do teu peito

ma a solidão

entra pelos meus vidros

e nas suas enlutadas mãos

solto o meu delírio

è então que surges

com os teus passos de menina

os teus sonhos arrumados

como duas tranças nas tuas costas

guiando - me por corredores infinitos

e regressando aos espelhos onde a vida

te encarou mas os ruídos da noite trazem

a sua esponja silenciosa e sem luz e sem

tinta meu sonho resigna longe os homens

afundam com o caju que fermenta 

e a onda da madrugada demora - se 

de encontro às rochas do tempo
 

Destino

à ternura pouca

vou - me acostumando

enquanto me adio

servente de danos e enganos

vou perdendo morada

na súbita lentidão


de um destino

que vai sendo  escasso

conheço a minha morte

seu lugar esquivo

seu acontecer disperso
 

horas sem fim

morre - se

nada

quando chega a vez

è sò um solavanco

na estrada por onde já não vamos

morre - se tudo

quando não è justo momento


e não è nunca esse momento
 

Ternura

beber toda a ternura

não ter morda

habitar

como um beijo

entre os lábios


fingir - se  ausente

e suspirar

( o meu corpo

     não reconhece na espera  )

percorrer como um gesto sò

não ter corpo

e beber toda a ternura

para refazer

o rosto em que desapareces

o abraço em que desobedeces
 

véspera

há um perfume que trabalha

em mim e me acende sobre

a poeira  há um rosto que

regressa à fonte água

 readormecendo e sò hoje reparo

o labor das nuvens corais solares

arquitectando o céu pássaros brancos

pousando na varanda dos teus olhos

sò hoje enfrento o sol fogo imóvel

labareda da água andemos meu amor


de coração descalço sobre o sol

 

ilha

tenho a sede das ilhas

e esquece - me ser terra

meu amor aconchega - me 

meu amor mareja - me

depois não me ensines a estrada

a intenção da água è o mar

a intenção de mim ès tu
 

Primeira palavra

aproxima o teu coração e inclina

 o teu sangue para que eu recolha

os teus inacessíveis frutos para

que prove da tua água e repouse

na tua fronte debruça o teu rosto

sobre a terra sem vestígios 

prepara o teu ventre para anunciada

visita atè que nos lábios humedeça

a primeira palavra do teu corpo


 

no teu rosto

competem mil madrugadas

nos teus lábios

a raiz do sangue

procura suas pétalas

a tua beleza è essa luta

de sombras o sobressalto

da luz num tremor de água

è boca da paixão

mordendo o meu sossego
 

Pergunta - me

pergunta - me se ainda ès o meu fogo se acendes

ainda o minuto de cinzas se despertas a ave magoada

que se queda na árvore do meu sangue pergunta - me se o vento

 não traz nada  se o vento tudo arrasta se na quietude do lago

repousam a fùria e o tropel de mil cavalos pergunta - me se te

voltei a encontrar de todas as vezes que me detive junto das

pontes enevoadas e eras tu quem eu via na infinita dispersão

do meu ser eras tu que reunias pedaços dos meus poemas

reconstituindo a folha rasgada na minha mão descrente

qualquer coisa pergunta - me qualquer coisa uma tolice um


 mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba

que queres ainda saber para  que mesmo sem te 


responder  saibas o que quero dizer
 

segunda-feira, 30 de maio de 2022

porque te amo

estou mais perto de ti porque te amo

os meus beijos nascem já na tua boca 

não poderei escrever o teu nome

com palavras tu estás em toda parte

e enlouqueces - me canto os teus olhos

mas não sei do teu rosto

quero a tua boca aberta em minha boca

e amo - te como se nunca te tivesse amado

porque tu estás em mim mas ausente de mim

nesta noite sei apenas dos teus gestos


e procuro  o teu corpo para além dos meus dedos

trago as mãos distantes do teu peito


sim tu estás em toda parte tão por dentro de mim

tão ausente de mim


e eu estou perto de ti porque te amo
 

nenhuma morte

nenhuma morte apagará os beijos e por dentro das casas

onde nos amamos ou pelas ruas clandestinas da grande

cidade livre estarão sempre vivos os sinais de um grande

amor e da morte com que se vive a vida aì estarão de novo

as nossas mãos e nenhuma dor será possível onde nos beijamos

eternamente apaixonados meu amor eternamente livres

 prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e

 profundamente no peito dos  amantes a nossa alma líquida

atormentada desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas ardam


violentos de paixão os nossos beijos e os corpos

se abracem mais e se confundam mutuamente
 

soneto de mal amado

invento - te recordo - te distorço

a tua imagem mal e bem amada

sou apenas a forja em que me forço

a fazer das palavras tudo ou nada

a palavra incendiada lambeando

a trave mestre do teu corpo 

a palavra ciúme atormentada

a provar que ainda não estou

morto

e as coisas que eu disse ? que não digo


meu terraço de ausência meu castigo meu pântano

de rosas afogadas


por ti me reconheço e contradigo joio e trigo


apenas por ternura


levedadas 
 

eu não sei

eu não sei meu amor se o que digo

è ternura se è riso  se è pranto

è por ti que adormeço e acordo

recordo no canto essa tarde  

em que surgiste dum triste

e profundo recanto essa noite

em que cedo nasceste despida

de magoa e de espanto

meu amor nunca è tarde nem

cedo para quem se  quer tanto !


 

foi a noite mais bela

foi a noite mais bela de todas as noites

que me aconteceram dos nocturnos silêncios

que a noite de aromas e beijos se encheram

foi a noite em que os nossos dois corpos

cansados não adormeceram e da estrada

mais linda da noite uma festa de fogo

fizeram


foram noites e noites  que numa sò noite 

nos aconteceram


era o dia da noite de todas as noites

que nos procederam


era a noite mais clara daqueles que à noite

se deram e entre os braços da noite de tanto


se amarem vivendo morreram
 

meu amor meu amor

minha estrela da tarde que o luar te amanheça

e o meu  corpo te guarde

meu amor meu amor

eu não tenho certeza se tu ès a alegria

ou se ès a tristeza


meu amor meu amor


eu não tenho a certeza !
 

Estrela da tarde

era tarde mais longa de todas as tardes que nos acontecia

eu esperava por ti tu não vinhas tardavas e eu entardecia

era tão tarde que a boca tardando - lhe o beijo morria

quando a boca da noite surgiste na tarde qual rosa

tardia quando nòs nos olhamos tardamos no beijo

que a boca pedia e na tarde ficamos unidos ardendo

na luz que morria em nòs dois nossa tarde que tanto

tardaste o sol amanhecia era tarde demais para haver

outra noite para haver outro dia


 

Tristeza

a minha tristeza não è a do lavrador sem terra a minha tristeza è a do astrónomo cego