quinta-feira, 30 de junho de 2022

falas de civilização

e de não deve ser ou de não deve ser assim

dizes que todos sofrem ou a maioria de todos

com as suas causas humanas postas desta maneira

dizes que se fossem diferentes sofriam menos

dizes se fossem como tu seria melhor

escuto sem te ouvir

para que te quereria ouvir ?

ouvindo - te nada ficaria a saber

se as coisas fossem diferentes seriam diferentes 

e tudo se as coisas fossem como tu queres seriam



sò como tu queres  ai de ti e de todos que levam a vida

a tentar inventar a máquina da felicidade
 

se eu

pensasse  nessas coisas

deixaria de ver as árvores

de ver a terra para ver sò

os meus pensamentos 

entristecia e ficava às escuras

e assim sem pensar tenho

a terra e o céu
 

terà

a terra consciência das pedras e das plantas

que tem ? se ela tiver que a tenha

que me importa isso a mim ?
 

desagrada - me e incomoda - me

como se desse por mim 

com um pè dormente

que pensará isto daquilo

nada pensa nada
 

que pensará

o meu muro da minha sombra ?

pergunto - me às vezes isto

atè dar por mim a perguntar

coisas
 

acho

tão natural que não se pense

que me ponho a rir às vezes

sozinho nem sei bem de quê

mas de qualquer coisa  que

tem haver em haver gente

que pensa
 

trago o universo

 ele próprio isto sinto

isto escrevo perfeitamente

sabedor e sem que não veja

que são cinco horas do amanhecer

e que o sol que anda não mostrou

a cabeça por cima do mouro 

 do horizonte ainda assim já se

lhe vêem as pontas dos dedos

agarrando o cimo do muro

do horizonte cheio de montes


baixos 
 

sou descobridor da natureza

 sou o argonauta das sensações

verdadeiras

assim escrevo

ora bem ora mal ora acertando

como o que quero dizer ora

errando caindo aqui 

levantando - me acolá mas

indo sempre  como  cego caminho

teimoso ainda sou alguém
 

desde modo

ou daquele modo conforme calha

ou não calha podendo às vezes

dizer o que penso e outras dizendo

- o o mal e com mistura escrevendo

os meus versos sem querer como se

escrever fosse uma coisa feita de gestos

como se escrever fosse uma coisa que me

acontecesse como dar - me ao sol de fora
 

procuro

despir - me do que aprendi

procuro esquecer - me do modo

de lembrar que me ensinaram

e raspar a tinta com que me pintam

os sentidos desembrulhar - me e ser

eu animal humano que a natureza

produziu e assim escrevo querendo

sentir a natureza nem sequer como

homem mas como quem sente

a natureza e mais nada
 

o meu pensamento

sò muito devagar atravesso

o rio a nado porque  lhe pesa

o fato que os homens o fizeram

usar
 

procuro

encostar a palavra a ideia

não precisar dum corrector

de pensamento para as palavras

nem sempre consigo sentir o que

sei que devo sentir

 

procuro

dizer o que sinto sem pensar

em que o sinto
 

deste modo

ou daquele modo conforme calha

podendo às vezes dizer o que penso

e outras dizendo - o mal e com misturas

vou escrevendo os meus versos sem querer

como se escrever fosse uma cosa feita de

 gestos como se escrever fosse uma coisa 



que me acontecesse 



como dar - me o sol de fora

 

o que nòs vemos

das coisas são as coisas

por que veríamos nòs uma

coisa se houvesse outra ?

por que è que ver e ouvir

seria iludir - nos


se ver e ouvir são ver e ouvir ?

saber ver sem estar a pensar


saber ver quando se vê

nem ver quando se pensa


mas isso

( triste de nòs que trazemos a alma vestida ! )

isso exige um estudo profundo uma aprendizagem


de desaprender e uma sequestração na liberdade

daquele convento de que os poetas dizem 


que  as estrelas são freiras eternas e as flores

 as penitentes convictas de um sò dia


mas onde as estrelas não são senão estrelas

nem as flores senão flores


sendo por isso que lhes chamamos estrelas

e flores


 

nunca desistas

guarda em ti uma pequena

faísca e nunca entregues

a ninguém

enquanto estiver contigo

podes voltar a acender

o fogo
 

eu sou do tempo

em que se escrevia cartas a carta começava por

espero que esteja tudo bem nòs cà vamos indo

do tempo do amola tesouras das fraldas de pano

do tempo em que levávamos o rolo das fotografias

a fotografo e tínhamos de esperar uma semana

par que estivessem prontas do tempo em que um

 rolo de vinte e quatro fotografias sò se aproveitava

meia dúzia do tempo que havia cabines telefónicas

por todo o lado do tempo em que se usava uma esferográfica

para rebobinar a fita da cassete do tempo em que sempre que


havia uma  avaria técnica aparecia uma mensagem

pedimos desculpa por esta interrupção o programa


segue dentro de momentos sou do tempo em que Gabriela

parava o país inteiro do tempo em que os exames na escola


primária eram feitos  com caneta de tinta permanente

do tempo que havia aulas ao sábado


eu sou do tempo em que a amizade se fazia a pè

do tempo em que se atravessava a cidade para


se chamar uma amiga


o nosso chat era o quarto a porta da casa a rua

o nosso feed era actualizado nos intervalos


das aulas os nossos pedidos de amizade eram

um olhar um olà


havia os amigos os conhecidos e os desconhecidos

não havia confusão os perfis eram verdadeiros


ninguém visualizava as nossas perguntas e ficava

sem responder quando passamos na rua não podíamos


ficar off - line sò mudar de passeio


 

navio que partes para longe

por que è que ao contrário dos outros

não fico depois de desapareces com

saudades de ti ?

porque quando te não vejo deixaste

de existir e se se tem saudade  do

que não existe sinto - a em relação

a coisa nenhuma não è do navio è 

de nòs que sentimos saudades
 

a neve

pôs uma toalha calada sobre tudo

não se sente senão o que se passa

dentro da casa embrulho -me num

cobertor e não penso sequer em 

pensar sinto um gozo de animal

e vagamente penso e adormeço

sem menos utilidade que todas


as acções do mundo


 

quem me dera

que eu fosse o pò da estrada

e os pès dos pobres estivessem

a pisar - me

quem me dera que eu fosse

os rios que correm e que as lavadeiras

estivessem a minha beira

quem me dera que eu fosse os choupos

à margem do rio e tivesse sò o céu por cima

 e a água por baixo


quem me dera que eu fosse o burro do moleiro

e aquele que me batesse e me estimasse antes


isso que o ser que atravessa a vida olhando

para trás de si e tendo pena

 

o vento

sò leva aquilo

que não criou

raìzes
 

se tu farias melhor

no lugar do outro por que não

aproveitas para o fazer

estando no seu ?
 

as três peneiras

um rapaz procurou o filósofo Sócrates

e disse - lhe que precisava de contar - lhe

algo sobre alguém Sócrates  ergueu os olhos

do livro que estava a ler e perguntou o que

tu me vais contar já passou pelas três peneiras ?

três peneiras ? indagou o rapaz

sim !

a primeira peneira è a Verdade

deve então passar pela segunda peneira

a Bondade


o que queres contar è uma coisa boa ? ajuda a construir

ou a destruir o caminho do próximo ?


agora se o que queres contar è verdade è coisa boa

deverás ainda passar pela terceira peneira a Necessidade


convém contar ? resolve alguma coisa ? ajuda a comunidade ?

pode melhorar o mundo ?


e Sócrates concluiu 


se passaste pelas três conte ! tanto eu como tu e o teu irmão

iremos beneficiar caso contrário esqueça e enterre tudo


será um boato a menos para envenenar o ambiente e fomentar

a discórdia entre irmãos
 

passamos pelas coisas

sem as habitar falamos com os outros

sem os ouvir juntamos informação

que nunca chegamos a aprofundar

tudo transita num galope ruidoso

veemente e efémero na verdade

a velocidade em que vivemos 

impede - nos  de viver
 

quarta-feira, 29 de junho de 2022

ela há - de vir

com um punhal solene cravar - se

para sempre no meu peito podem

os deuses rir na hora presente que ela

há - de vir como um punhal direito

cubram - me lutos sordidez e chagas !

tambèm rubis das minhas mãos morenas !

rasguem - se vèus do leito que me afagas !

a coroa de ferro è cinza apenas e ela há - de

 vir a lebre que receio e cuja sombra aos poucos

me consomem ela há - de vir maior que a sede


 e a fome ela há - de vir a dor que ainda não veio
 

Dinheiro

quem quiser ter filhos

que doire primeiro a jarra

onde inteira caiba alguma flor !

ai dos que têm filhos mas não

têm herdeiros !

dinheiro ! dinheiro !


ò canção de amor !

as noivas sorriem talvez aos vinte anos


os amantes sonham sonho passageiro !

musica de estrelas éticas de enganos perdidas


depois dos vinte anos e logo outras nascem

          dinheiro ! dinheiro !


teus pais teus irmãos e tua mulher

cercarão teu leito de heróis derradeiros


( ai de quem ouvindo - o nada trouxer ! )

e hão - de ali pedir - te o que o mundo quer


               dinheiro ! dinheiro !

deixa - lhes versos que um dia fizeste amarrado ao lodo

porém verdadeiro eles te dirão pássaro celeste morreste ? morrendo 


que bem fizeste ! ò canção de amor ! dinheiro ! dinheiro !

 

Ironia

de tanto pensar na morte

mais de cem vezes morri

de tanto chamar a sorte

a sorte chamou - me a si

deu - me frutos doirados

a paz a fortuna o amor

as musas vieram pôr na minha

fronte os seus loiros

hoje o meu sonho procura com

saudade a poesia dos tempos


em que eu sofria que triste coisa

a ventura !
 

Eternidade

a minha eternidade neste mundo

sejam vinte anos sò depois da morte !

o vento eles passados que enfim corte

a flor que no jardim plantei tão fundo

as minhas cartas lei - as quem quiser !

torne - se publico o meu pensamento !

e a terra a que chamei minha mulher

a outros dê seu lábio sumarento !


a outros abra as fontes do prazer e teça o leito

em pétalas e lume ! 


a outros dê seus frutos a comer e em cada noite

a outros dê perfume !


o globo tem dois pólos ontem e hoje


dizemos sò pai ! ou sò meu filho !


o resto è baile que não deixa trilho

rosto sem carne fixidez que foge


venham beijar - me a campa os que me beijam

agora frágeis frívolos e humanos !


os que me virem morto ainda me vejam depois da morte

vivo ainda vinte anos !


nuvem subindo anis que se evapora

assim um dia passa a minha vida !


mas antes que uma lágrima sentida traga a certeza

que alguém me chora ! 


Adro ! Cabanas !

meu cantar do Norte !


( negasse eu tudo acreditava em Deus ! )


não peço mais depois da morte haja vinte anos 

que ainda sejam meus !

 

Fonte

meu amor diz - me o teu nome

    nome que desaprendi

diz - me apenas o teu nome

    nada mais quero de ti

diz - me apenas se os teus olhos

minhas lágrimas não vi se era noite

nos teus olhos sò passei por ti !

depois calaram - se os versos

     versos que desaprendi 

e nasceram outros versos que me afastaram


de ti  meu amor diz - me o teu nome

alumia o meu ouvido antes que eu


rasgue estes versos como quem rasga um vestido !


 

fuga

o musico procura fixar em cada verso 

o cântico disperso na luz na água e no vento

porém luz vento e água variam risos e mágoas

de momento a momento e em vão a área dos dedos

se eleva ! não traduz os súbitos segredos escondidos

no vento nas águas e na luz


 

os amigos infelizes

andamos nus apenas revestidos

da musica inocentes dos sentidos

como nuvens ou pássaros passamos

entre o arvoredo sem tocar nos ramos

no entanto em nòs o canto quase mudo

nada pedimos recusamos tudo nunca

para vingar as próprias dores tiramos

sangue ao mundo ou vida às flores


e a noite chega ! ao longe morre o dia

 a Pátria è o Céu e o Céu a Poesia


e hà mãos que vem pousar em nossos ombros

e somos o silêncio dos escombros


ò meus irmãos ! em todos os países rezai

pelos amigos infelizes !
 

inocência

de um lado a veste o corpo do outro

lado límpido nu intacto sem defesa

mitológico rosto debruçado na noite

 que por ele fica acesa !

se traz os lábios húmidos e lassos

è que a paixão sem mácula ainda

o cega e tatuou na curva de alvos braços

 as letras da palavra entrega 

acre perfume o dessa flor agreste álcool azul 

o desse vinho


de um lado o corpo do outro lado o veste

como luar deitado no caminho em frente


há um pinheiro cismador o rio corre vagaroso

ao fundo nesta estrada ninguém passa ai !


tanto amor sem culpa ! as dos poetas deste mundo !
 

Divórcio

cidade muda rente ao meu lado

como um fantasma sob a neblina

há cem mil rostos tanto soldado

e tanto abraço desesperado nesta

cidade tão masculina !

cidade muda como um soldado

cidade cega todos os dias a nossa vida

 fica mais breve as nossas mãos ficam


mais frias todos os dias a morte paga

paga a quem deve


cidade cega todos os dias cidade oblíqua

sexo pesado rio de cinza lúgubre e lento


bandeira negra barco parado nunca o teu nome

foi baptizado nem o teu desejo foi casamento !


cidade minha do meu pecado cidade estranha

sabes que existo ?


os homens passam para onde vão ?

sò tem amores quem não for visto por isso canto


sò porque insisto em dar combates a tentação

oh ! a volúpia de não ser visto !
 

adolescentes

exaustos mudos sempre que os vejo

nos bancos tristes que há na cidade

sob em mim próprio como um desejo

ou um remorso da mocidade e atè a

brisa perfidamente lhes roça os lábios

pelos cabelos quando a cidade na sua

frente rindo e correndo finge esquece - los !


eles no entanto sentem - se na bela

( deram - lhe sangue pranto e suor )


quanto mais tarde se vingam

dela por tudo o que hoje sabem


de cor !


e essas paragens nos bancos tristes

( aquela estranha meditação ! )


traz - lhes meu Deus  sò porque existes

a garantia do teu perdão !

 

últimas vontades

na branca praia hoje deserta e fria

de que se gosta mais do que gente

na branca praia onde te vi um dia

para sonhar já tarde eternamente

achei ( ia jura - la  ) à nossa espera

intacto o rasto dos antigos passos

aquela praia inamovível era espelho

de pès leves depois lassos !

e doravante imploro em testamento 

que nesta  areia a espuma seja a tiara


do meu cadáver preso ao teu e ao vento ...


vaivém sexual que o mar lega aos defuntos ?

se a vida agora tudo nos separa ò meu amor


apodreçamos juntos !
 

lembras - te

quando ao fim do dia felizes

ambos íamos nadar e em nossa

boca a espuma persistia em dar

ao sol o nome de luar ?

tudo era fácil melodioso

e longo aqui e ali um sùbito

ditongo ecoava em nòs certa

canção pagã

contudo o azul do mar não 

tinha fundo


e o mundo continuava a ser o mundo

banhado pela aragem da manhã ! 
 

os poetas

 

nunca os vistes sentados nos cafés

que há na cidade um livro aberto

sobre a mesa e tristes incógnitos

sem oiro e sem idade ?

com magros dedos coroados a fronte

sugerem o nostálgico sentindo de quem

rasgasse um pouco de horizonte

proibido ...

fingem de reis da Terra e do Oceano


( e filhos são legítimos do vício ! )


tudo o que neles nos pareça humano

è fogo de artificio 


por vezes fecham - lhe as portas

ódio que nada se resume


voltam depois a horas mortas

sem um queixume e mostram


sempre novos laivos de poesia em seu olhar


adolescentes ! afastai-vos quando algum deles

vos fitar !


era mulher

a mulher nua e bela sem a impostura inútil

do vestido era a mulher a cantar no meu ouvido

como se a luz se reassumisse nela mulher de seios

duros e pequenos como uma flor a abrir em cada

peito era mulher  com bíblicos acenos e cada qual

para os meus dedos feito era o seu corpo a sua carne

toda era o seu porte o seu olhar seus braços luar de noite

e manancial de boda boca vermelha de sorrisos lassos

era a mulher a fonte permitida por Deus pelos Poetas

pelo Mundo era mulher e o seu amor fecundo dando


a nòs o direito à vida !
 

para voltar a ver - te

um sò instante a ti que ès mais bela

que a lua antes que a manhã recolha

as estrelas uma a uma e a guarde do

outro lado do céu vou atravessar o rio

coberto de holofotes que transformem

o verde num claro numa fosforescência

de água assustada  se não me matarem

nem me apanharem vivo

mantêm - te alerta

mantém - te alerta


o desejo antigo e o mais novo

vou passar do lado de fora da

parede perfurada pelas balas

passa - me um lenço de seda

com o teu perfume

marca - o com o segredo dos teus

lábios

 

Cola - Cola Song

isto passa tudo isto passa

tudo isto passa pelos teus

olhos os os teus olhos passam

os teus olhos passam por tudo

isto Baby


isto não passa de uma coisa que passa

tudo isto não passa de uma coisa que passa

pelos teus olhos ou os teus olhos não passam

de uma coisa que passa por tudo isto Baby


isto não passou de uma coisa que passou

pelos teus olhos ou os olhos não passaram

de uma coisa que passou por isto Baby
 

tudo

o que temos que decidir

è o que fazer com o tempo

que nos è dado
 

para ganhar conhecimento

adicione coisas todos os dias

para ganhar sabedoria

elimine coisas todos os dias
 

è assim que Deus

ensina - nos a ser cuidadores

de corações onde nascem

os melhores sentimentos

mais que precisam de cuidados

para aperfeiçoar ao longo da vida

os melhores sentimentos isso e ser

cuidador de corações amar o próximo

assim como Deus ama
 

o que faço ?

sou cuidador de corações

cuidar de corações ?

quando os corações estão feridos

ou magoados precisam de alguém

que os ouça eu ouço precisam de ternura

a ternura ajuda a cicatrizar as feridas

quando os corações partidos precisam

de alguém que os ajude a apanhar os bocadinhos

que caem no fundo da alma eu ajudo

quando os corações estão pisados precisam de alguém


que lhes dê colo eu dou 


conto - lhes histórias do que será os corações

precisam de esperança

quando não conseguem adormecer eu embalo - os  


quando os corações estão apertados precisam de alguém

que os desperte eu faço das minhas palavras a chave que


abre novamente o coração a leveza da alegria e do riso

quando os corações estão perdidos eu acendo a luz da fé


para desimpedir o caminho


quando os corações cegam para a beleza do mundo

eu ensino - os a ver novamente as coisas maravilhosas


que fazem com que a vida valha a pena


quando os corações se sentem sozinhos eu faço -lhes companhia

atè aprenderem que estar sozinho não è sinónimo de  solidão


quando os corações anoitecem eu fico a pè toda a noite como as estrelas

e não deixo que a lua recolha as velas do luar


quando os corações estão desanimados eu abro o meu e mostro - lhes

que há sempre uma razão pela qual um coração bate
 

segue o teu destino

rega as tuas plantas

ama as tuas rosas

o resto è sombra

de árvores alheias

a realidade

sempre è mais ou menos


do que nòs queremos sò nòs somos

sempre iguais a nòs próprios
 

nada

como um domingo de limpezas

è preciso deitar fora o que nos pesa

e sò ocupam o espaço de que precisamos

para coisas importantes è preciso limpar

os cantos da alma desembaciar o coração

puxar o brilho aos olhos è preciso deitar fora

as mágoas e não guardar rancor o rancor cria 

bolor na alegria agarra - se a memória atinge

o futuro è preciso deixar sò o que nos faz falta

as coisas que estão a mais não nos acrescenta


nada que interessa sò nos subtraem tempo e energia

vamos ouvir musica e ouvir com atenção tudo o que


fala ao coração è hora de se varrer as teias em que

nos enredamos e não deixar entrar quem não venha


por bem nada melgazzz  e outros sunzuns dà trabalho mas uma

alma nova è sempre boa causa
 

ofereça flores

a quem saiba

cuidar delas
 

perguntou

uma vez uma estudante à antropóloga

Margaret  Mead qual considerava ser

o primeiro sinal de civilização numa cultura

a estudante esperava que a antropóloga

falasse de anzóis bacias barro ou pedras

para amolar mas não  Mead  disse que o

primeiro sinal de civilização numa cultura

antiga è a prova de uma pessoa com um

fémur partido e curado

Mead explicou que no resto do reino animal


se tu quebrares a perna tu morres tu não podes

fugir do perigo ir para o rio beber água ou


caçar para te alimentares tornaste numa carne fresca

para os predadores nenhum animal sobrevive a uma


perna quebrada o tempo suficiente para que o osso

cure um fémur partido que se curou è a prova de que


alguém tirou seu tempo para ficar ao lado de quem caiu

curou a sua lesão colocou a pessoa em segurança e cuidou


dela atè que ela se recuperasse ajudar alguém a ultrapassar 

a ultrapassar as dificuldades è o ponto de partida da civilização


explicou Mead a civilização è ajuda comunitária



 

a partir

de uma certa idade

não è mais a felicidade

que se busca mas a paz

e talvez essa seja a forma

mais profunda da felicidade
 

Tristeza

a minha tristeza não è a do lavrador sem terra a minha tristeza è a do astrónomo cego